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Em mim te perco, aparição noturna Neste bosque de enganos, nesta ausência; Na cinza nevoenta da distância, No longo corredor de portas falsas.
De tudo se faz nada, e esse nada De um corpo vivo logo se povoa, Como as ilhas do sonho que flutuam, Brumosas, na memória regressada.
Em mim te perco, digo, quando a noite Vem sobre a boca colocar o selo Do enigma que, dito ressuscita E se envolve nos fumos do segredo.
Nas voltas e revoltas que me ensombram, No cego tatear de olhos abertos, Qual o labirinto a porta máxima, Onde a réstia de sol, os passos certos?
Em mim te perco, insisto, em mim te fujo, Em mim cristais se fundem, se estilhaçam, Mas quando o corpo quebra de cansado Em ti me venço e salvo, me encontro em ti.
José Saramago In Os Poemas Possíveis
A tua vida, meu amigo, é uma ilha separada de todas as outras ilhas e de todos os outros continentes. Independentemente dos barcos que enviares a outras praias ou dos barcos que acostarem às tuas praias, tu mesmo és uma ilha separada pelas próprias dores, isolada na sua felicidade, distante na sua compaixão e escondida nos seus segredos e mistérios.
(Khalil Gibran in Espelhos da Alma)
O desespero, May, é a onda mais baixa da maré do coração. O desespero, May, é um sentimento sem voz. Por isso é que eu costumava sentar-me à tua frente durante aqueles longos meses, olhando o teu rosto sem nada dizer. Por isso é que não escrevi quando me cabia a mim fazê-lo. Por isso é que costumava sussurrar para mim mesmo "já não tenho nenhum papel a desempenhar." Mas no coração de cada Inverno palpita uma primavera, e por detrás do véu de cada noite existe uma manhã sorridente; e assim o meu desespero tornou-se numa forma de esperança.
(Khalil Gibran in As mais belas cartas de Amor )

Sou um estrangeiro neste mundo. Sou um estrangeiro, e há na vida do estrangeiro uma solidão pesada e um isolamento doloroso. Sou assim levado a pensar sempre numa pátria encantada que não conheço, e a sonhar com os sortilégios de uma terra longínqua que nunca visitei.
Sou um estrangeiro para minha alma. Quando minha língua fala, meu ouvido estranha-lhe a voz. Quando meu Eu interior ri ou chora, ou se entusiasma, ou treme, meu outro Eu estranha o que ouve e vê, e minha alma interroga minha alma. Mas permaneço desconhecido e oculto, velado pelo nevoeiro, envolto no silêncio. (...)
Sou um estrangeiro neste mundo. Sou um poeta que põe em prosa o que a vida põe em versos, e em versos o que a vida põe em prosa. Por isto, permanecerei um estrangeiro até que a morte me rapte e me leve para minha pátria.
(Extraído de “Temporais”- Khalil Gibran)
“A vida é assim, está cheia de palavras que não valem a pena, ou que já valeram e já não valem, cada uma que ainda formos dizendo, tirará o lugar de outra mais merecedora que o seria não tanto por si mesma, mas pela conseqüência de tê-las dito (...)
(...) há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam pegados a página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar á outra margem, a outra margem é que importa(...)”
(...)muitas das palavras não passavam de cortinas de fumo, circunstância por outro lado nada estranhável porque as palavras, muitas vezes, só para isso servem, mas há pior ainda, que é quando elas se calam de todo e se convertem num muro de silêncio compacto(...)
Jose Saramago in A Caverna
Sem querer te perdi tentando te encontrar por te amar demais sofri, amor me senti traído e traidor
Fui cruel sem saber que entre o bem e o mal Deus criou um laço forte, um nó e quem viverá um lado só?
A paixão veio assim afluente sem fim, rio que não deságua Aprendi com a dor nada mais é o amor, que o encontro das águas
Esse amor hoje vai pra nunca mais voltar como faz o velho pescador quando sabe que é a vez do mar
Qual de nós foi buscar o que já viu partir, quis gritar, mas segurou a voz, quis chorar, mas conseguiu sorrir?
Quem eu sou pra querer entender o amor...
Jorge Vercilo |
Eu, prisioneiro meu descobri no breu, uma constelação Céus, conheci os céus pelos olhos seus Véu de comtemplação.
Deus, condenado eu fui a forjar o amor no aço do rancor e a transpor as leis mesquinhas dos mortais Vou entre a redenção e o esplendor de por você viver
Sim, quis sair de mim esquecer quem sou e respirar por ti e assim transpor as leis mesquinhas dos mortais
Agoniza, virgem Fênix (O amor) entre cinzas, arco-íris e esplendor por viver às juras de satisfazer o ego mortal.
Coisa pequenina, centelha divina, renasceu das cinzas, onde foi ruína pássaro ferido hoje é paraíso Luz da minha vida, pedra de alquimia Tudo o que eu queria, renascer das cinzas
Quando o frio vem nos aquecer o coração Quando a noite faz nascer a luz da escuridão e a dor revela a mais esplêndida emoção, o amor
Jorge Vecilo
Vim gastando meus sapatos Me livrando de alguns pesos Perdoando meus enganos Desfazendo minhas malas Talvez assim chegar mais perto
Vim achei que eu me acompanhava E ficava confiante Outra hora era o nada A vida presa num barbante E eu quem dava o nó
Eu lembrava de nós dois Mas já cansava de esperar E tão só eu me sentia E seguia a procurar Esse algo alguma coisa Alguém que fosse me acompanhar
Se há alguém no ar Responda se eu chamar Alguém gritou meu nome Ou eu quis escutar
Vem, eu sei que está tão perto E por que não me responde Se também tuas esperas Te levaram pra bem longe É longe esse lugar
Vem, nunca é tarde ou distante Pra te contar os meus segredos A vida solta num instante Tenho coragem, tenho medo sim Que se danem os nós
Ana Carolina
Meu coração tropical está coberto de neve Mas ferve em seu cofre gelado a voz vibra e a mão escreve mar...
Bendita lâmina grave, que fere a parede e traz As febres loucas e breves que mancham o silêncio e o cais
Roserais, Nova Granada de Espanha por você, eu teu corsário preso vou partir a geleira azul da solidão e buscar a mão do mar, me arrastar até o mar, procurar o mar...
Mesmo que eu mande em garrafas, mensagens por todo o mar meu coração tropical partirá esse gelo e irá como as garrafas de náufragos e as rosas partindo o ar...
Elis Regina
Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer. Então sabemos tudo do que foi e será. O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam. Levantemos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos. Com doçura. Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites. Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela. Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz. Cada um de nós é por enquanto a vida. Isso nos baste.
J SARAMAGO
Após longa viagem, fatigado Tendo mesmo acabado de aterrar, Fui eu, portas saindo, perguntado Se não havia nada a declarar.
Declaro um grande amor feito em pedaços Arrastado pelas ruas da amargura Que quer sobreviver a mil cansaços E a muitas ilusões contranatura
Declaro que vivi, serenamente. Que amei da forma que sabia amar. Confesso que falhei, redondamente, No que era o tempo e a forma de o expressar.
Declaro, se isso faz algum sentido, E sem qu'rer implorar pena de mim, Que voei meia viagem distraído E não cuidei das flores do meu jardim.
Mais declaro que trago na bagagem O desgaste natural que o tempo faz. Confesso que no fim desta viagem Só queria um doce abraço e alguma paz.
E quanto ao que me estava a perguntar, Declaro nada ter a declarar...
Aníbal Raposo
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